A sociedade está a borrifar-se para os deficientes
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Uma queda na casa de banho mudou a vida de um dos psicólogos mais conceituados do país. “As pessoas achavam que tinha perdido qualidades e passaram a falar-me muito devagarinho”, testemunha
Nas últimas décadas, Eduardo Sá é nome de referência quando se fala de psicologia infantil e parentalidade em Portugal. Queixa-se de que as crianças brincam menos e de que os “pais 5G” estão obcecados com o controlo, numa espécie de tecnocracia. Mas a vida encarregou-se de lhe dar uma nova cruzada quando, há cinco anos, um acidente o sentou numa cadeira de rodas.
“Acho que posso ser útil para que as pessoas, quando olham para alguém que tem uma deficiência, digam assim ‘é só uma pessoa’. Todos vamos morrer e, mais tarde ou mais cedo, ficamos doentes”, declara em entrevista ao PÚBLICO.
“E quando ficamos doentes deixamos de ser um cidadão. Passei a ser o doente da cama dois”, recorda o psicólogo sobre os seis meses que viveu num hospital de reabilitação, onde descobriu que não havia espaço para a saúde mental, ainda menosprezada em Portugal.
A gravidade do acidente doméstico, onde fraturou a coluna, foi tal que confessa ter pensado se valia a pena continuar. “Cheguei ao juízo e decidi estar vivo”, diz.
Até porque tem muito para viver. Aos 64 anos, é pai de seis filhos e autor de dezenas de livros sobre parentalidade. Curiosamente, o próximo título a publicar, a 21 de Setembro, será um diário sobre tudo o que viveu e como o mudou profundamente. “É ter a noção de tudo o que se perde, de pegarmos em tudo isso e, de um certo ponto de vista, reconstruímo-nos. Acho que hoje sou uma pessoa melhor.”
O seu primeiro livro chamava-se Crianças para Sempre, estou certa?
Não. Era um livro de poesia, que se chamava Homo Nudus. (risos)
Mas acredita que somos crianças para sempre?
A única diferença é que nós temos a obrigação de verbalizar as coisas e nem sempre conseguimos fazê-lo. Mas, em termos de potencial, a capacidade de nos espantarmos com a vida, de nos surpreendermos, de nos assustarmos, de ficarmos tristes por coisas pequenas — somos muito parecidos com as crianças.
Fez carreira sobretudo na área da parentalidade. Hoje sabemos ser melhores pais porque temos mais conhecimento ou isso é uma ilusão?
Somos os melhores pais que a humanidade já produziu. Temos as crianças mais competentes, mas estamos a espatifá-las todos os dias.
Com as redes sociais?
Hoje temos pais 5G que vivem dominados por tutoriais e por influencers. As mães estão cercadas das opiniões mais diversas. A mim inquieta-me que vão constantemente a uma aplicação do jardim-de-infância saber a que horas é que a criança foi à casa de banho.
Esta procura de informação constante é uma tentativa de controlo.
É uma insegurança tão grande. Às vezes, quando os pais me perguntam uma fórmula para sermos bons pais, digo sempre: “Tem de se fazer uma asneira de oito em oito horas”. Gosto muito mais desse lado de sexto sentido, de quem pensa e hesita, do que tudo isto muito configurado, que retira esta capacidade de irmos aprendendo a ser pais à medida que se fazem asneiras.
O papel do pai e o vínculo com os bebés sempre foi menos discutido?
Acho que o pai vive numa espécie de terra de ninguém. Passo a vida a ouvir um discurso sexista sobre o homem, que me incomoda.
“Se os homens tivessem uma criança, a humanidade deixava de existir, porque não seriam capazes de suportar uma dor.”
Os homens participam sempre na decisão da parentalidade? São chamados a decidir quando é que se quer ter um filho?
A palavra-chave é: nem sempre. Um homem quando chega a uma maternidade para acompanhar as consultas da obstetrícia é uma espécie de adereço, tratado quase como se fosse uma criança adestrável. Ainda hoje as maternidades não percebem que o pai, durante o trabalho de parto, é um analgésico magnífico.
Em que sentido é que ser pai também nos traz de volta à nossa infância?
Costumo dizer que um primeiro filho é sempre uma criança em perigo. É aí que se cruzam as nossas histórias todas: os pais que nós tivemos; os pais que nós desejávamos ter tido; os pais que nós imaginamos ser capazes de ser; as crianças que nós achamos que somos capazes de construir. Essa criança é tão alimentada pelo hoje temos pais 5G que vivem dominados por tutoriais e por infuencers.
Acho que o pai vive numa espécie de terra de ninguém, costumo dizer que um primeiro filho é sempre uma criança em perigo. Somos sempre melhores pais à medida que temos mais filhos.
Habitualmente temos a ideia de que primeiro está o trabalho e depois estão as crianças.
Acho exatamente o contrário: primeiro está a relação amorosa dos pais, depois estão os filhos, os amigos.
Como é que quer que uma criança esteja atenta a trabalhar 12 horas por dia, sem brincar, sem descansar e a viver debaixo de stress?
O olhar de uma mãe que é sempre muito mais frágil. O mais novo é o rebelde oficial de todas as famílias.
De seis filhos, como o Eduardo tem, somos seis pais diferentes?
Somos sempre melhores pais à medida que temos mais filhos.
Sei que isto parece um discurso pró-natalista. (risos) Mas um filho custa muito dinheiro… Este país dentro de 30 anos tem menos de quatro milhões de pessoas. Gostava que nos explicassem como é que se vão pagar reformas ou a saúde. E os políticos, independentemente dos grupos parlamentares, põem-se numa atitude do género “o último que apague a luz”.
Estamos condenados a ser um país de filhos únicos, qual é o problema?
São filhos que correm o risco de ser muito egocêntricos. São miúdos que têm tantas qualidades, mas têm muita dificuldade de errar... Quando não sabem uma coisa ficam em pânico. São muito mais inseguros, porque são estupidamente protegidos.
Hoje falamos mais de emoções com as crianças?
Nós temos a ilusão de que falamos porque dizemos “isto é ira” ou “isto é alegria”. Falar de emoções é experimentá-las. Só as pessoas saudáveis é que são capazes de exteriorizar a raiva porque as outras têm raiva por dentro e amuam. Está tudo ao contrário. Temos uma espécie de tecnocracia da parentalidade.
Porque não temos tempo?
Temos. É uma desculpa. Os portugueses perdem horas a fazer scroll, com a agravante que, segundo a segundo, há um vídeo novo. Trazemos toneladas de conteúdos para o nosso cérebro que vira barata tonta. É por isso que as pessoas estão muito mais cansadas. Sofremos de obesidade mental. As pessoas têm é dificuldade em fazer escolhas. Habitualmente temos a ideia de que primeiro está o trabalho e depois estão as crianças.
Acho exatamente o contrário: primeiro está a relação amorosa dos pais, depois estão os filhos, os amigos… Se o trabalho vier em quinto ou sexto lugar não somos menos sérios.
Mas fazemos o mesmo com as crianças ao enchê-las de horários?
Trabalham 12 horas por dia e têm recreios de cinco ou dez minutos. Não toleramos que errem e vivem num stress permanente de expectativas. Têm aulas de 90 minutos e depois há sempre um qualquer que diz “tem défice de atenção”. E eu pergunto-me, mas como é que querem que não tenham se ninguém se adequa ao funcionamento delas. Não lhes damos tempo para serem crianças.
Falava de défice de atenção. Há mais diagnósticos ou só temos mais conhecimento?
Está-me a perguntar o que é que nasceu primeiro.
Se foram os défices de atenção ou as metanfetaminas? As metanfetaminas. Como é que quer que uma criança esteja atenta a trabalhar 12 horas por dia, sem brincar, sem descansar e a viver debaixo de stress? A inteligência só é possível quando o cérebro se solta e vai de associação em associação. A inteligência é sinónimo de criatividade, não é sinónimo de reprodução mecânica de conhecimentos.
O seu próximo livro não é sobre parentalidade. Vai chamar-se Um pássaro quando pousa nunca deixa de voar. É uma metáfora para o acidente que sofreu?
Claro. Tive um acidente estúpido, como todos os acidentes, mas que foi violentíssimo. Uma pessoa desmaia porque faz uma cólica e desmaia num sítio errado, à hora errada e fractura a coluna. Sempre ensinei sistema nervoso...
Percebeu logo o que tinha acontecido?
Claro. Passei por uma cirurgia altamente complexa, por seis meses de internamento, que é uma coisa absolutamente insana. Estive num hospital de reabilitação, onde estão pessoas que tiveram azares ainda maiores do que o meu, como estarem a dormir num sofá e adormecerem, escorregarem e baterem com o pescoço no banquinho onde põem os pés e ficam tetraplégicas. Ao pé delas, pensei: “Tive sorte.”
Não há a revolta do “porquê eu”?
Eu sou um cristão que não acredita em Deus. Ainda assim, tenho aquele ideal profundamente cristão: acredito que os maus é que merecem castigo. Sou convidado muitas vezes para pertencer às comissões que estudam a morte medicamente assistida. Nunca aceitei porque acho que a minha função é a contrária: ir lá resgatar as pessoas mesmo quando estão muito perturbadas. E pensei:
‘O que é que eu quero fazer da minha vida?
Faz sentido estar vivo?’
Pensa-se em tudo — na pessoa com que se vive, nas crianças, nas coisas que se tem em mãos. Cheguei ao juízo final. E decidi estar vivo. Sempre achei que era uma pessoa equilibrada, mas não pensava que fosse tanto. Decidi, a partir daquele momento, começar a escrever dia a dia.
Uma espécie de diário para o ajudar a processar o que estava a sentir?
A minha vida é olhar para dentro das pessoas, descodificar e desmistificar algumas coisas que me irritam. Nós vivemos num mundo antidepressivo, é uma coisa que eu acho insuportável... Ninguém nos diz nas escolas de Psicologia que a depressão é um sinal vital. É sinal de que estamos muito tristes por alguma coisa que vale a pena. Nós precisamos de muito tempo para reconhecer que aquela perda que tivemos é irreparável e que ninguém vai substituí-la. E, portanto, sim, quis transformar uma experiência horrível numa coisa que pudesse ser tão bonita quanto possível.
É um processo de luto da vida que achava que ia ter?
De luto e de nascimento ao mesmo tempo. Percebi que já não podia andar a saltar nas pedras na Praia Maria Luísa. É ter a noção de tudo o que se perde e de pegarmos em tudo isso e, de um certo ponto de vista, reconstruímo-nos.
Acho que hoje sou uma pessoa melhor. Custa-me dizer isso.
Em que sentido?
Mudou-me profundamente.
Estou sempre a ser solicitado para as coisas mais diversas. E a mim dá-me um gozo secreto, porque é como quem diz “uau, os aleijadinhos podem trazer mais-valias ao pensamento das pessoas”. Mas sou Taylor Swift em algumas coisas. Pergunto sempre se tem acessibilidade. Quando lá chego, dizem “agora é uma questão de lhe pegarmos ao colo”. E faz parte do meu número, respondo: “Desculpe, mas eu costumo escolher as pessoas que me pegam ao colo.” A impressão que tive, num primeiro momento, é que as pessoas achavam que tinha perdido qualidades e passaram-me a falar muito devagarinho. O exemplo disso é quando eu ia à Segurança Social, acompanhado pela minha mulher, a senhora virava-se para ela a falar acerca de mim. É a maneira como nos tornam menos pessoas...
O capacitismo da sociedade só se percebe quando se passa por uma situação destas?
Sim, só se percebe assim...
Somos todos capacitistas em algum momento?
Acho que sempre fui particularmente humano, mas não era capaz de imaginar o impacto que isto tudo tem na vida.
As barreiras tornam-se físicas?
Estas rampas aqui custaram uma fortuna com comparticipação 0% do Estado português.
O Estado declara que paga 20 sessões de fisioterapia durante um ano, que é uma coisa brutal...
E são 20 sessões de 20 minutos. Isso dá para tirar as meias elásticas e voltar a colocá-las. E com isso acha que é inclusivo. A sociedade está-se a borrifar para os deficientes. Não são pessoas. Votam, todavia. Adorava promover uma campanha pública para pôr à entrada de Lisboa a dizer “proibida a entrada a deficientes”. As cidades têm rampas que são uma afronta. Um grau de diferença é aquilo que distancia, perdemos o equilíbrio e temos um traumatismo cranioencefálico. As câmaras estão preocupadas com isto?
E eu só não tenho outro tipo de limitações porque, entretanto, o meu corpo muito trabalhado responde. As autarquias e os governos querem lá saber dos deficientes.
É ter metade do mundo fechado?
Muito mais de metade. Eu dou aulas em duas universidades: uma adaptou o espaço para que tenha autonomia desde que saio do carro. Na outra, se eu quiser ir
Tive um acidente estúpido, como todos os acidentes, mas que foi violentíssimo
Quantas vezes é que se sentaram comigo e disseram o que significa conduzir ou que mudanças tenho de fazer em casa? Nenhuma
As pessoas achavam que tinha perdido qualidades e passaram a falar-me muito devagarinho
à casa de banho, tenho de ir a um restaurante onde há casa de banho adaptada. Às vezes dizem-me “mas porque é que nos países nórdicos há tantas pessoas que andam na rua autonomamente [de cadeira de rodas]?”. Eu rio-me com sarcasmo. A diferença é capaz de não ser haver mais pessoas em cadeira de rodas. A diferença é entre considerarmos que aquelas são pessoas e que aqueles são deficientes. Portanto, em Portugal não são deficientes, são cidadãos com deficiência. É mentira.
Porque olhamos para as pessoas com deficiência como aqueles que estão fechados em casa...
Não têm remédio. Eu vi pessoas a saírem do hospital de reabilitação a chorar e diziam “eu a partir de agora não posso nunca mais sair de casa”. Os hospitais de reabilitação assobiam para o ar perante isto tudo.
Que papel tem a saúde mental num hospital de reabilitação?
Zero. Dão tantos antidepressivos que as pessoas se movimentam, chegam ao elevador para carregar no botão e enquanto o elevador sobe, adormecem. Isto é a saúde mental em Portugal.
Como é que foi para si ver isso enquanto psicólogo?
No primeiro dia, tinha o diretor do hospital a vir-me dar as boas-vindas. Passaram-me a fazer muitos pedidos e eu comecei a trocar pedidos por acesso ao bar, onde os doentes não podiam ir tomar um café, por exemplo.
E eu não estou a dizer que seja por mal... Para já, não têm recursos e depois mecanizam. Mas não param cinco minutos para perguntar “vamos fazer de conta que esta pessoa é o meu pai, o que é que eu faria?”. É cada um por si e Deus por todos e isso sempre me revoltou estupidamente. Quantas vezes é que se sentaram comigo e disseram o que significa conduzir ou que mudanças tenho de fazer em casa? Nenhuma. Ninguém discute um plano de reabilitação. E eu dirigi-me várias vezes a perguntar “porque é que não posso participar no meu plano de reabilitação”? Sem quererem, tratam-nos como deficientes.
Acho isso revoltante.
O que é que fez com a sua revolta?
Escrevi um livro. A alternativa era ficar rancoroso.
Quer ser um porta-voz do que está errado na forma como é tratada a deficiência?
Provavelmente aquilo que me distingue dos outros é que fui capaz de traduzir em palavras aquilo que os outros são capazes de sentir. Acho que pode ser útil para as pessoas quando olham para alguém que tem uma deficiência digam assim “é só uma pessoa”. Até por isto: todos vamos morrer e, mais tarde ou mais cedo, ficamos doentes. E quando ficamos doentes deixamos de ser um cidadão. Passei a ser ‘o doente da cama dois’. Quando nós temos ideia de que ensinamos humanidade aos nossos filhos, não é bem como imaginamos.
Ficou a perceber melhor as pessoas que defendem a morte medicamente assistida? Ou mantém-se da mesma opinião?
Como não? Tinha duas pessoas ao meu lado que berravam a noite toda e gemiam. Não tinham telefone como eu tinha, não tinham um plasma e o relógio estava parado. Não sabiam a que horas ou em que dia estavam.
E eu olhava para o lado e pensava: “Percebo que, num assomo de clarividência, dissessem ‘dêem-me a liberdade de escolher não estar vivo’”. Depois não sei como é que um médico reconverte um juramento e diz assim “vamos lá fazer isto”. Eu não seria capaz porque tenho sempre a ideia de que há sempre caminho de volta. É uma espécie de pulsão cá dentro.
Ainda tem muitas dúvidas sobre a vida?
Claro que tenho. Mal seria.
Aí, sim, estava para morrer.
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